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FOLHA DE S. PAULO mais! - Domingo, 21 de maio de 1995 5- 15 OLHO CLÍNICO
O interesse de Richard Rorty
O livro "A Filosofia e o Espelho da Natureza” do pensador americano, é lançado no Brasil

JURANDIR FREIRE COSTA
Especial para a Folha

A publicação de “A Filosofia e O Espelho da Natureza'' (ed. Relu­me Dumará) é um bom momento para a discussão da obra de Ri­chard Rorty.

O sucesso de Rorty nos meios acadêmicos e a variedade de as­suntos que aborda, seguramente di­ficultam uma justa apreciação de seu trabalho. Porque faz sucesso, Rorty pode ser visto como mais um, teórico da moda; porque abraça lemas que vão de questões técnicas de filosofia analítica à guerra na Bósnia, tende a ser avaliado pelos especialistas das disciplinas que discute como um diletante que fala muito do que conhece pouco. Os mal-entendidos são inevitáveis. Fazem parte dos riscos assumidos por Rorty, na defesa de sua concepção da tarefa do filósofo.

Penso que Rorty tornou-se um dos mais estimulantes pensadores da atualidade. No artigo autotobio­gráfico “Trostky e as Orquídeas Selvagens”, ele diz como aproximou-se da filosofia antecipando a originalidade de sua posição no cenário intelectual de hoje. Quando estudante, diz Rorty, uma pergunta o inquietava: como conciliar o bem-estar individual com o bem-­estar de todos? Fez esta pergunta à filosofia e não se contentou com a resposta. Notou que a maioria dos filósofos tentava resumir num só princípio explicativo as causas e as justificações do que é bom para um e para a coletividade. Ocorre que nem sempre é possível unificar num mesmo sistema conceitual as causas e as justificativas de nossas crenças e nem tudo que favorece a busca de felicidade individual é compatível com o bem comum.

Existem múltiplas interpretações das causas e das razões do que somos do que queremos e de por que agimos. Todas são, por isso mesmo, contingentes, isto é, historicamente dependentes dos contextos em que são aceitas e enunciadas como ver­dadeiras.

O que determina a escolha de um ponto de vista sobre o sujeito e o mundo são os objetivos pragmáticos visados e não a posse de uma teoria fundada em exigências lógi­cas ou achados empíricos incontestáveis. Rorty redescobriu, assim, o pragmatismo filosófico da cultura norte-americana. Fez suas as máximas de William James e Wendell Holmes: onde encontrar uma contradição faça uma redescrição, a vida, antes de ser lógica, é experi­mento.
As idéias de redescrição e experimento tornaram-se o centro de seu pensamento e o alvo principal dos adversários.

No termo redescrição, uns viram a ocultação ingênua ou deliberada da dominação político-econômico-cultural ou da violência das pul­sões e paixões humanas. Dito de outro modo, as realidades não-linguísticas que condicionam a ação subjetiva são excluídas do neo­pragmatismo. em beneficio de uma bem comportada ação performati­va da língua.

No termo experimento, outros viram a negação da força da história da modelagem ideológica do que pode ou não ser experimenta­do. A criatividade individual não nasce da cabeça de Zeus; é limita­da e orientada pelos interesses so­ciais dominantes. Rorty, diz-se, faz das mudanças históricas e pessoais um efeito de decisões voluntaristas e individualistas, apoiadas num idealismo lingüístico, onde o sujeito parece narrar-se e redescrever-se num clima ameno de chá das cinco. Em suma, como disse um crítico, a moral de Rorty é boa para executivos, estetas e terapeutas.

Esta leitura é opcional. Em meu entender, Rorty nem nega a exis­tência nem a influência das realida­des não-linguísticas sobre o sujeito e suas visões de mundo. Quando recusa a idéia de que os referentes dos termos que usamos possam in­depender ‘realisticamente’ das teorias de verdade que temos, não quer dizer que o sentido das pala­vras ou expressões sejam puro re­flexo da forma ou sintaxe gramati­cais. Diz somente que empregar palavras com sentido é o mesmo que dominar as regras corretas de seus usos no interior de uma teoria de verdade que constrói seus próprios referentes. Mas, para saber como tal ou qual teoria de verdade impôs se na linguagem ordinária, precisamos recorrer à história ou à genealogia das crenças tidas como verdadeiras.

Neste caso, termos como “po­der'', ''interesse'', "dominação", ''realidade material'' etc., são indispensáveis à análise, pois verda­deiro é aquilo que nos habituaram a aceitar como verdadeiro, pela força ou pela persuasão dos costu­mes. Exemplificando, uma coisa é dizer que a crença na existência de realidades como ''lei do merca­do'', '“sexualidade”, ''raça” etc., depende dos referentes casualmente associados às idéias que tornam a crença plausível; outra coisa é tentar mostrar o jogo de poder, in­teresses etc, que tornaram a crença não plausível mas historicamente viável. A análise lingüística daquilo que nos habilita a descrever o mundo de uma forma ou de outra não exclui a análise de como fomos levados a crer na verdade de tal descrição.

Redescrição e experimento são apenas maneiras de afirmar que não podemos garantir que proble­mas e soluções atuais estavam prontos ou podiam ser previstos no começo dos tempos ou no passado remoto da cultura. Isto não signifi­ca desconhecer o peso do passado como causa do presente. Significa que só podemos ver a marca do passado no presente quando dispo­mos de uma teoria de verdade que mostra a marca como causa ou razão do que importa discutir.

Para efeitos da ação, só existem eventos sob descrição. E a descri­ção preferida do intérprete será a mais adequada às suas convicções éticas e não a mais iluminada pela Razão. Por conseguinte, agimos éticamente porque experimentamos saídas para dilemas conforme uma dada tradição moral e não porque conhecemos lugar onde as palavras soldam-se ao supremo Bem.

Esta opção teórica pode ou não ser admitida. Mas, se admitida, não implica necessariamente em con­servadorismo político ou moral. O neopragmatismo de Rorty pode le­gitimar escolhas políticas distintas, desde que certos princípios éticos sejam mantidos. Dou um exemplo.

Rorty traça uma linha divisória entre o público e o privado que, a meu ver, espelha o modo de viver democrático: de um lado, as insti­tuições liberais encarregadas da justiça para todos, de outro lado, o incentivo à liberdade individual de experimentar novos estilos de vida, exceto os que atentem físico-moralmente contra o outro. Mas este esquema pode converter-se facil­mente em um projeto conservador. Basta que as fronteiras entre o pri­vado e o público, assim como esta própria divisão, sejam eternizadas.

Rorty, às vezes, parece deslizar nesta direção, como mostram as críticas que fez a Foucault. Ele re­prova em Foucault, a pretensa indi­ferença social de seu modelo esté­tico da existência. Mas, redescrito de outro ângulo, Foucault pode ser visto como o cronista liberal, elogiado por Rorty. Nada no pensa­mento de Foucault sugere desres­peito à dor do outro ou alheamento diante da opressão. Neste exemplo, Rorty pode ser confrontado com as premissas de seu raciocínio e con­testado em suas conclusões. Ele, como Foucault, partilham o mes­mo credo moral básico da cultura humanista e democrática, embora discordem radicalmente sobre os melhores meios de alcançar o fim desejado. Esta é uma conseqüência do neopragmatismo. O valor moral da teoria não deriva exclusivamen­te de seu conteúdo, mas do uso fei­to na prática.

Enfim, Rorty nem é a salvação nem a danação de nossos espíritos. É um pensador extraordinariamen­te inteligente, que nos faz pensar, às vezes, no que nunca havíamos pensado. É só e é muito. Poucos, muito poucos, foram ou chegaram até aí. Por este motivo, "A Filoso­fia e o Espelho da Natureza" deve ser lido com a atenção que seu au­tor merece e exige.

JURANDIR FREIRE COSTA é psicanalista e professor de medicina social na Universidade Es­tadual do Rio de Janeiro é autor de "Inocência e Vicio . Estudos sobre o Homoerotismo" e "A Ética e o Espelho da cultura"

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