Avançar para o conteúdo principal

FILÓSOFO ESCREVE SOBRE O BRASIL

FILÓSOFO ESCREVE SOBRE O BRASIL
VOLTAIRE

Acabamos de ver, no meio das terras da América, multidões de povos civilizados, in¬dustriosos e aguerridos, descobertos e domi¬nados por um pequeno número de espanhóis. Mas os portugueses, conduzidos pelo florenti¬no Américo Vespúcio, tinham descoberto desde a época das viagens de Cristóvão Co¬lombo, no ano de 1500, países não menos vastos, não menos ricos e povoados por na¬ções completamente diferentes. Vespúcio chegou às costas do Brasil situadas perto do Equador.
E o terreno mais fértil da Terra, o céu mais puro e o ar mais saudável. O vento do Orien¬te, que a rotação da terra em seu eixo faz gerar continuamente entre os dois trópicos, depois de atravessar mil léguas de mar, traz ao Brasil uma doce aragem que tempera o calor de um sol sempre vertical e garante uma primavera eterna. As árvores desse solo desprendem um odor delicioso. As montanhas têm ouro, as rochas, diamantes e todas as frutas nascem nos campos não cultivados. A vida dos ho¬mens, limitada por toda parte a 80 anos no máximo, estende-se geralmente entre os bra¬sileiros a 128, às vezes até a 140 anos. Ainda hoje vêem-se portugueses decrépitos embar¬carem em Lisboa e rejuvenescerem no Brasil.
Mas que espécie de homens habitavam es¬sa região pela qual a natureza tudo fez? Ves¬púcio conta em uma carta ao gonfaloneiro de Florença que os brasileiros são de cor bronzeada; talvez se se dissecasse um brasileiro com o mesmo cuidado com que se dissecaram ne¬gros, encontrar-se-ia em sua membrana mu¬cosa a razão dessa cor.
Quanto aos costumes, eram inteiramente sem leis, sem nenhum conhecimento da di¬vindade, unicamente ocupados com as neces¬sidades do corpo; a mais interessante dessas necessidades era a junção dos dois sexos. Sua maior habilidade consistia no conhecimento de ervas que estimulavam seus desejos e que as mulheres se encarregavam de colher. A vergonha lhes era desconhecida. Sua nudez, que a amenidade do clima lhes impedia de cobrir, não envergonhava ninguém, e servia para confirmar o uso de não distinguir, no acasalamento, nem irmã, nem mãe, nem filha, das outras mulheres.
A necessidade de matar animais para servi¬rem de alimento os levou a inventar o arco e as flechas. Essa era sua única arte. Serviam-se dela em suas disputas de homem a homem, ou de multidão a multidão. O vencedor comia com sua companheira a carne do inimigo. Vespúcio disse que um brasileiro lhe deu a entender que tinha comido 300 homens em sua vida e quando ficou sabendo que os portugueses não comiam seus inimigos demons¬trou grande surpresa. Tal era, no mais belo clima do universo, o estado de pura natureza de homens que chegavam à mais avançada velhice em plena saúde.
Tradução de ELIANA SCOTTI MUZZI

Trecho extraído do livro "Essai sur les Moeura", cujo fac-símile -veja acima- será exibido por ocasião do Simpósio Voltaire, em Ouro Preto

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A ARTE INCONDICIONAL DE AMAR

O amor é a maior força que existe no mundo. Aqui falo de amor no sentido lato e não só do sentimento que pode existir entre dois seres. O amor total é uma forte de energia que não utilizamos o suficiente. O amor é uma plenitude que no envolve até nos momentos de raiva, pois a raiva ou ódio é a antítese do amor, ou seja, o amor que está doente. Portanto, aja sempre com amor e terá sucesso na sua existência. O amor está na base de todas as grandes descobertas e grandes invenções que tiveram lugar, têm lugar e terão lugar na história da humanidade. Sem amor, não podemos construir nada de grande. O amor é simplesmente a essência que nos mantém vivos. Se os homens projetaram enormes templos, igrejas, mosteiros, sinagogas, mesquitas, foi por amor ao ser supremo: o seu salvador aquele conhecido com regente de todas as coisas que existe no universo. Se os homens fizeram descobertas em todos os domínios, foi para melhorar a vida dos seus amados irmãos. Seja no domínio da medicina, da tecnologi…

Poder e Política no pensamento de Hannah Arendt

Poder e Política no pensamento de Hannah Arendt: Vivian Santana Paixão

 Resumo

Este trabalho objetiva fazer uma
reflexão sobre as concepções de política e poder no pensamento de Hannah
Arendt. Para a autora, o poder está associado à capacidade de iniciar e
de desenvolver ações com os outros, estando fortemente relacionado com a
liberdade. Nessa mesma linha, a política é uma instância de fundação do
mundo comum e de resistência à sua destruição. Palavras-chave: poder, política, Hannah Arendt, ação, liberdade.
Domingo, 23 de abril de 1995 5- 11 Folha de São Paulo

Hegel filosofa sobre a essência da caneta

OLGÂRIA CHAIM FÉRES MATOS
Especial para a Folha

Em “Como o Senso Comum Compreende a Filosofia”, um es­crito de juventude, Hegel se pro­põe responder a seu contemporâneo Krug, representante emblemá­tico do senso comum filosófico". Propõe-se em termos, pois consi­dera seu contendor - que sucede Kant na Universidade de Konigs­berg -o próprio 'non sense' rea­lista.
O interlocutor, à primeira vista, é inocente: manifesta perplexidade frente às filosofias do idealismo transcendental, em particular as de Schelling, Hegel e Fichte, dando a entender que o Criticismo não pas­sa de esquizofrenia da Razão) quan­do diferencia Eu empírico e Eu transcendental
Eis o que inviabilizaria explicar as “simples coisas'', aquelas dadas, ou melhor, pré-dadas: ingênuo em seu naturalismo, Krug adere existência de seres e objetos, igno­ra a consciência que lhes confere existência e inteligibilida…